Há menos de um mês, resolvi investigar a quantas anda o mercado de aparelhos GPS portáteis. Para quem não conhece, trata-se de equipamentos pequenos capazes de tirar partido dos satélites que orbitam ao redor da Terra para guiar os motoristas através de uma tela touchscreen. É simples assim. Melhor: o equipamento é pago, mas o serviço é gratuito, a não ser pelas atualizações. Ou seja, é uma bela compra para aqueles que ficam perdidos nos grandes centros urbanos e adorariam ter uma ajuda para chegar sem sustos aos seus destinos.

É o meu caso. Sou uma negação em geografia, tenho uma memória péssima para guardar caminhos e não consigo me imaginar dirigindo numa cidade como São Paulo, onde até os taxistas lançam mão do famoso Guia Rex para levar os passageiros aos destinos pretendidos. Por isso, fiquei muito emocionada na primeira vez em que tive a oportunidade de ver um aparelho GPS funcionando. Isso foi há longos dez anos atrás, na cidade de Salt Lake City, no estado de Utah, nos Estados Unidos. Tinha ido cobrir uma feira de tecnologia e logo na primeira corrida de táxi dei de cara com o equipamento, confortavelmente instalado no painel do táxi que me transportava.

Cheguei a pedir ao taxista que me explicasse como aquela traquitana funcionava. Na verdade, a explicação chegava a ser desnecessária, uma vez que o tal GPS... falava! Sim, uma suave e delicada voz, sem sotaque, indicava o melhor caminho e dava pequenas ordens ao motorista... vire à direita, siga em frente, vire à esquerda...

Foi a primeira vez em que estive cara a cara com um produto que, ao meu ver, faria a maior diferença no mundo! Isso porque, além de indicar os caminhos, o tal GPS era capaz de escolher a melhor rota, a mais rápida e, em caso de discordância por parte do motorista — se este decidisse virar à direita quando a voz o mandava seguir em frente, por exemplo — o aparelho era capaz de reorganizar a rota quase imediatamente de forma a continuar indicando o melhor caminho. Fiquei emocionada e, claro, ansiosa pela chegada daquela maravilha no trânsito daqui.

Infelizmente, tive de esperar muitos anos para ver isso acontecer. Foi por volta de 2006 que a tecnologia GPS começou a chegar discretamente dentro dos telefones celulares mais modernos. Tive a oportunidade de testar alguns modelos da Nextel e outros da Nokia capazes de traçar rotas e indicar caminhos através do uso de satélites. Pois o casamento celular-GPS mostrou-se muito promissor e hoje, dois anos depois, o mercado de aparelhos portáteis automotivos já fica aquecido, ao ponto de empresas do porte da Garmin, gigante do setor, começarem a olhar com carinho para a possibilidade de criar representações locais.

A boa notícia é que a concorrência fez os preços dos aparelhos GPS automotivos caírem bastante. Hoje, dá para comprar um modelo touchscreen, com mapas e pontos de interesse (POIs) locais por menos de R$ 1 mil, o que era impensável dois anos antes. O preço, no entanto, não é o fator mais importante: os equipamentos agora já trazem milhares de mapas nacionais, dos grandes centros urbanos e até mesmo mapas rodoviários, indicando os melhores percursos entre cidades e estados.

Segundo os especialistas, a atualização dos mapas ainda é demorada — em média, eles são atualizados a cada seis meses, com modelos de cobrança pelos upgrades ainda pouco claros — mas as empresas que cuidam dessas atualizações já se movimentam para incluir as mudanças cada vez mais rapidamente. É que o trânsito no Brasil ainda é muito inconstante. As ruas mudam de mão quase diariamente, o que obriga o motorista a, mesmo usando o GPS, manter uma atenção redobrada nas ordens que recebe da máquina.

Enquanto isso, a tecnologia GPS continua evoluindo. Relembrando um pouquinho a história, o sistema GPS foi criado pelo Departamento de Defesa dos EUA para uso militar (sim, é isso mesmo!) e hoje já é comumente usado em serviços de localização em telefonia móvel. A simplicidade chega às mãos dos civis sob a forma de um aparelho receptor capaz de captar os sinais emitidos pelos satélites em órbita ao redor da Terra. A posição dos indivíduos é fornecida por meio de latitude, longitude e altitude. Os satélites que formam o sistema GPS foram lançados pelo governo americano em 1978 (o primeiro) e 2004 (o 29º).

Hoje, o sistema GPS pode ser usado em conjunto com aplicativos como o famoso Google Earth, programa criado pelo Google que pode mostrar prédios dentro de cidades em qualquer lugar do mundo. Atualmente, o Google Earth está intimamente ligado a outro produto de localização da Google, o Maps, que já oferece a possibilidade de elaboração de mapas e rotas em território brasileiro.

Dia desses, consegui traçar uma rota, usando o Google Earth em conjunto com o Maps, saindo de Niterói — onde eu moro —, pegando a estrada e chegando até a Bom Jesus do Itabapoana, no Norte Fluminense (na verdade, extremo norte do Estado do Rio) onde eu nasci e onde minha família ainda reside. Eu poderia ter usado o mapa para, por exemplo, propor uma viagem aos meus amigos e distribuir o caminho, impresso, para que eles pudessem chegar lá tranqüilamente.

A verdade é que as aplicações do GPS são infinitas e nós só vimos, até agora, o começo da exploração do potencial do sistema. Em breve, ouviremos falar — e muito — do projeto Galileo, que pretende criar o primeiro sistema GPS civil do planeta. Aí, sim, a tecnologia chegará com maior qualidade a qualquer lugar do planeta. Eis a tradução perfeita do verdadeiro Big Brother, usado — desde que com parcimônia — para o bem da humanidade.

Elis Monteiro é repórter e colunista do caderno Info etc do Jornal O Globo, foi repórter especial do caderno Informática do Jornal do Brasil, onde participou da equipe responsável pela criação do caderno Internet.

 
 
       
   
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